Luís Antunes | Comments Off | LA's CliffsNotes
Sexta-feira, Janeiro 18, 2008 at 11:00AM "As Benevolentes" de Jonathan Littell
Prémio Goncourt; Grande Prémio do Romance da Academia Francesa
Publicações Dom Quixote, Dezembro de 2007
As Erínias, Eumênides ou Benevolentes eram, de acordo com a mitologia grega, deusas perseguidoras, vingadoras e secretas e parece que o autor foi buscar inspiração para este épico depois de ver uma fotografia de um partisan soviético, Zoya Kosmodemjanskaja, a ser executado pelos Nazis.
O romance conta a história do SS Oberstumbannfuhrer (tenente-coronel das SS) Maximilien Aue, alemão de origem francesa, doutorado em Direito Internacional, amante do piano - que nunca aprendeu a tocar -, homossexual incestuoso e próspero homem de negócios no pós-guerra. Na sua "Toccata" - introdução - é o próprio Dr. Aue que nos fala:
Os que me lêem nunca poderão dizer: Não matarei, é impossível; poderão dizer quando muito: Espero não matar. Também eu o esperava, também eu queria viver uma vida boa e útil, ser um homem entre os homens, igual aos outros, também eu queria contribuir com a minha pedra para a obra comum... Adiante, se vos digo que sou como vocês!
Nazi arrependido? Nem por sombras. Mas para compreendermos este Max Aue, temos de recorrer a Hanna Arendt, à sua monumental obra "As Origens do Totalitarismo" e, sobretudo, ao polémico "Eichmann em Jerusalém" que deu à luz o conceito da "banalidade do mal"; Eichmann, também SS Oberstumbannfuhrer e notório carrasco-burocrata de Himmler, apenas cumpria ordens. E, tal como Arendt denunciou, a cooperação de alguns dirigentes judeus com os nazis é descrita também neste romance. Nas Benevolentes está a banalização do terror, a manipulação das massas, o acriticismo face à mensagem do poder e as duas faces da mesma moeda do totalitarismo: Hitler e Stalin. A este propósito é notável o diálogo entre Aue e um comissário político russo aprisionado, pouco antes da derrocada de von Paulus em Estalinegrado. Aue conclui que o comunismo falhará, apenas porque a revolução marxista não fora feita na Alemanha...
Trata-se, sem dúvida, de uma obra monumental sobre o Mal, o grande tema que as duas guerras mundiais - sendo a segunda, o retomar de um "trabalho" não acabado - nos legaram. De difícil leitura pela pornografia da desumanidade nele contida - descreve o longo cortejo de horrores da frente russa, os campos de extermínio e a derrocada de Berlim -, custa a aceitar que um jovem, nascido em Nova Iorque, mais de vinte anos depois do fim do conflito, tenha esta assombrosa capacidade de nos mostrar que não há humanos inocentes, que um demónio no Paraíso voa na sua própria nuvem de Inferno.
Jonathan Littell, nasceu em Nova Iorque, em 1967. As Benevolentes é o seu primeiro trabalho literário. Graduado pela Universidade de Yale, é descendente de judeus que emigraram da Polónia para os USA. Escreve em francês e vive em Barcelona.
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