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Domingo
22Nov2009

A Minha Coluna 

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No último programa da "Quadratura do Círculo", António Lobo Xavier e António Costa desentenderam-se sobre a questão do "carácter" do político José Sócrates, recusando-se AC a discutir essa questão, com base na premissa de que falar do carácter de um político é descer ao nível zero da discussão.

Comecemos pela definição - tarefa difícil - da palavra "carácter" e aqui socorro-me do escritor Philip Yancey: é o que somos quando ninguem está a ver...

Ou seja, o carácter revela a nossa verdade interior. Por exemplo, o episódio Clinton-Lewinsky revelou que o ex-presidente dos USA era um adúltero não assumido, e um homem de meias-verdades. Claro que para o cidadão nada interessa se o senhor Clinton é ou não adúltero, mas o ser mentiroso mostra a sua falta de credibilidade e isso afecta a sua performance enquanto presidente. É aquilo a que se chama "accountability", o prestar contas. E, todos sabemos que ninguém o elegeu ou lhe pagava para usar a Sala Oval para se "divertir com charutos"...

Ora, se temos um primeiro ministro que nega qualquer interferência ou conhecimento sobre "negociatas" com órgãos de informação para, meses volvidos e porque alguém revelou conversas particulares, dizer que, afinal, não tinha um chamado "conhecimento oficial"... isto diz-nos algo. Para mais, não estamos a falar de "fumar" dentro de aviões ou salas do Estado, mas da comunicação social e de interferências que vão até ao nível do financiamento desses mesmos órgãos. 

A revista Sábado revelou que há estranhas coincidências entre o investmento publicitário do Estado e de empresas públicas e os media. Certos jornais, independentemente da sua tiragem, têm mais ou menos publicidade paga consoante são mais ou menos "amigos" do Governo. Factos, não suposições ou julgamentos de carácter.

Mas os factos têm também o aspecto da causalidade, não ocorrem aleatoriamente. Alguém, embora negando, dá as respectivas directivas. Assim sendo, importa, e muito, conhecer o carácter de quem tem a responsabilidade de garantir a isenção, ou, pelo menos, a não interferência do executivo no chamado quarto poder. Se isto não é relevante, se isto é descer ao nível zero da discussão política, então porque é que não elegemos antes máquinas assépticas para nos dirigirem? Porque é que nos temos de preocupar com ética e moral? Para que é que serve a Justiça? Porque é que os políticos pedem sondagens sobre o que deles pensa a "opinião pública"?

Meu caro Dr. António Costa, o seu colega António Lobo Xavier tem carradas de razão. Não deixe que o seu louvável sentimento de lealdade para com os seus amigos lhe perturbe o raciocínio.

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