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Sexta-feira
04Dez2009

Ideologia e Projecto

Já se sabe que o PSD anda, mais uma vez, à procura de nova liderança. Talvez por isso, o militante nº 1, Francisco Pinto Balsemão, resolveu dizer o que pensa sobre o actual estado das coisas. E disse simplesmente que o partido precisa de definir uma ideologia clara e parar com a criação de facções, sob pena de se desmembrar ou de perder a sua influência no panorama político nacional.

Não sei se por detrás destas declarações haverá a intenção de favorecer qualquer putativo candidato, mas o aviso tem razão de ser. Qualquer partido tem de ter uma ideologia. Senso lato, a ideologia é uma visão do mundo orientada para a organização da sociedade: quem deve governar, como se pode chegar ao poder, quem elege, qual o papel da família, do Estado, como se aplica a justiça, que direitos e deveres cada um tem, etc.

O PSD reclama-se da social democracia, mas isto quer dizer o quê?  É uma ideologia que aceita o capitalismo, isto é, o mercado, o capital privado, mas tende a torná-lo mais justo e igualitário, com o fim último de atingir o socialismo pela via democrática. Vago, muito vago, e muito exposto à mudança dos tempos. Faz, portanto, todo o sentido redefinir hoje o papel que um partido social-democrata pode ter na sociedade portuguesa.

Ou seja, a ideologia e o programa partidário devem ajustar-se à época e à sociedade em que se pretende aplicá-los. Importar ou copiar modelos externos não funciona. Mas, mais importante do que a ideologia e o programa partidário, será, neste particular momento da nossa sociedade, a definição de um projecto para Portugal. E disto nem o PSD nem Francisco Balsemão falam - em boa verdade, talvez o único partido que tenha um projecto sólido seja o PCP. Mas é disto que o povo português precisa como pão para a boca. As pessoas querem saber para onde é que o PSD - ou qualquer outra formação partidária -  as quer levar, que tipo de futuro deseja para a sociedade portuguesa e como se propõe alcançá-lo.

O PSD quer um Portugal onde 20% dos cidadãos usufruam de 80% da riqueza? A sua social democracia quer alterar estes números, quer, por exemplo, que 60% detenham 70% da riqueza? Pois que o diga e que explique como tal se atinge.  O PSD quer este Estado proprietário de empresas, regulador e actor ao mesmo tempo? Não? Então que Estado quer, para fazer o quê, com quantos funcionários? O PSD quer ou não deputados nominais, respondendo não aos ditames do partido mas antes aos dos seus eleitores? Quer antes um sistema misto? O PSD está satisfeito com este ensino, justiça, segurança, protecção social e sistema de saúde? Quer torná-los ainda mais acessíveis a todos, ou não? Qual o papel reservado ao sector privado nestas áreas? Economicamente, para onde nos quer levar o PSD? Que nível de dívida externa pretende? 60%, 90%, 130% do PIB? Quais os sectores prioritários de investimento público? Quais os sectores privados que quer apoiar?

Não vale a pena continuar, já se deve ter percebido o que é um projecto político: não é uma folha A4, é um plano extenso para o Portugal de hoje, de amanhã e do futuro. É um diagnóstico de verdades nuas e cruas; é quantificar e estabelecer metas, com números credíveis; é o "colocar a cabeça no cepo", isto é, assumir as responsabilidades e "meter o rabo entre as pernas e sair" quando os objectivos não são alcançados seja por erro previsional, falta de empenho ou de  competência.

Sejam suficientemente humildes para dizerem a verdade e o que pensam para Portugal e, se calhar, ficarão surpreendidos com a adesão de uma grande maioria do eleitorado. Se, e só se, forem capazes de produzir um bom diagnóstico e prescrever um correcto tratamento. Em suma, se forem credíveis.

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