Luís Antunes | Comments Off |
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Quinta-feira, Agosto 23, 2007 at 11:00AM Um dos exemplos cuja acção difusa e insinuante pode comprometer o trabalho de um grupo ou mesmo a marcha geral de zonas inteiras do trabalho social é a inveja.
Não sendo característica especialmente portuguesa, mas encontrando-se em todo o tipo de sociedade, tem em Portugal um terreno de eleição. Por várias razões: porque o nosso país continua a ser, em muitos domínios, uma sociedade fechada; porque, enquanto tal, o elemento pessoal e humano ainda pesa mais do que a estrutura impessoal, sendo assim, os efeitos da inveja só indirectamente, através das pessoas, atingem a instituição e, portanto, raramente se descobre a causa e a consequência; porque uma sociedade em que tudo se faz para encobrir os conflitos, não combatendo frontalmente o adversário, convém particularmente bem ao trabalho da inveja; porque um dos laços mais fortes da sociabilidade política (que substitui, em parte, o laço da cidadania, muito fraco) é o queixume - cuja relação com a inveja é das mais estreitas; enfim, uma última razão parece decisiva para dar às invejas um lugar privilegiado na sociedade portuguesa actual: o facto de esta sair de um regime de desvalorização, humilhação e mutilação das forças de vida do indivíduo.
José Gil in Portugal Hoje, o Medo de Existir
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