Luís Antunes | Comments Off | Ser Português será uma arte?
Quarta-feira, Março 21, 2007 at 04:00PM
Escrevia Teixeira de Pascoaes, em 1915, que ser português era uma arte de alcance nacional, que devia ser cultivada desde a infância. E vá de enumerar uma série de qualidades que seriam intrinsecamente “nossas”. Da Raça, como ele diz. A referência à nossa incapacidade para a filosofia, a única que não é encomiástica, é particularmente interessante: o génio lusíada é mais emotivo do que intelectual. Afirma e não discute. Quando uma ideia se comove, despreza a dialéctica; e é sendo e não raciocinando que ela prova a sua verdade (…). O português não quer interpretar o mundo nem a vida, contenta-se em vivê-la exteriormente; e tem, por iso, um verdadeiro horror à Filosofia, imaginando encontrá-la em tudo o que não entende.
Sábias palavras, ainda bem reconhecíveis nos idos de sessenta, na experiência do ensino liceal, que foi a minha. E agora, será diferente? Em que ponto estamos?
Agora, poderíamos aggiornare o texto de Pascoaes e constatar a nossa fraca capacidade de transformação. As suas manifestações sensíveis são as que o meu ilustre colega António Carrapatoso refere no seu artigo, e que vale a pena repetir: opinião pública pouco esclarecida, cultura de oposição permanente à mudança, adesão a tabus e a modelos obsoletos, sociedade civil fraca e pouco interventora, governos frequentemente populistas, que revelam uma incapacidade de ultrapassar os tabus ideológicos e que possuem uma deficiente capacidade de gestão, poder desproporcionado de determinadas corporações, e de outros grupos de interesse, também económicos, sobre a administração pública e que se apropriaram do Estado em detrimento do interesse de todos, resistindo a alterações que coloquem em causa os privilégios de que dispõem.
Muito recentemente, os media divulgaram os resultados do inquérito do European Social Survey: 38,9% dos portugueses diziam “não ter nenhum interesse pela política”, contra uma média europeia de 17,9%.
Constata-se, com tristeza, aquilo que todos nós sabemos mas queremos esquecer: ser português é também este desinvestimento naquilo que devia a todos nós dizer respeito, a política. A palavra política tem a ver com a polis, a cidade grega, onde pela primeira vez os homens experimentaram a democracia. Muito diferente da nossa, é bem verdade (era directa, as mulheres, os escravos e os estrangeiros não votavam, entre outros particularismos). Mas que implicava uma noção de bem comum que parece que não existe na nossa cultura.
Não precisávamos do resultado do relatório para sabermos que, em Portugal, as pessoas, quando não abominam a política, são-lhe indiferentes, como se fosse uma coisa que não lhes dissesse respeito. Às vezes até se lhe referem com desprezo como “a porca” e outras delicadezas, que são bem significativas do desprezo a que votamos tudo o que diga respeito à vida pública e às questões de cidadania.
De onde vem esta apatia, esta aversão? Curta experiência democrática? Séculos de governos centralizados? Forte influência do Catolicismo? Quarenta anos de obscurantismo e de fechamento ao exterior? Fraca autonomia dos indivíduos perante o Estado? Ou será mesmo fraca autonomia dos indivíduos em geral?
Há tempos escrevi umas linhas sobre o fenómeno do microcrédito, que já arrancou milhares de pessoas à miséria – noutras paragens. A questão não suscitou qualquer interesse, apesar do prémio Nobel atribuído ao seu inventor, o Prof. Yunus. Eis a olímpica indiferença dos portugueses pelo mundo que vá para além do quintalinho! Será só culpa do tiraninho – como lhe chamava Pessoa - de Santa Comba?
Ainda a propósito do microcrédito, falei com algumas pessoas amigas e conhecidas, que estão em situação de inactividade ou mesmo de desemprego, e reparei que a reacção era de aparente desinteresse ou mesmo de fuga à questão. Ou seja, nem queriam ouvir falar do assunto. Tive até um amigo que me disse que não valia a pena penasr nisso, “que era sempre para os mesmos”, etc. Tratando-se de pessoa instruída e informada, fiquei a cogitar sobre este cepticismo maligno, muito diferente do cepticismo dos antigos gregos (lá está a tal falta de jeito para a filosofia…).
A dura verdade é que o sucesso do microcrédito, como de muitas outras iniciativas privadas, tem a ver com a criatividade, a capacidade de iniciativa, a construção da autonomia, até mesmo com a construção da identidade.
Chego à conclusão de que a possibilidade de construirmos algo de raiz, com o esforço que isso obriga, é um assunto desagradável e que nos obriga a confrontar com uma série de questões penosas. E fico a interrogar-me sobre o aparente “conforto” de se ser desgraçadinho… O Dr. Sigmund Freud escreveu sobre isso há muito, muito tempo. Chamou-lhe benefício secundário.
E toda esta questão nos traz de volta à democracia.
Tenho para mim que uma das principais características que distingue a democracia dos outros regimes, é sabermos que teremos direito a tratamento igual perante a justiça, seja qual for a nossa condição social, ou outra. Ora sem uma máquina eficaz na justiça, não há democracia. A justiça é condição sine qua non para que as outras instituições, como a saúde e a educação, e a própria economia, funcionem. Justiça implica responsabilização. E a justiça funciona mal em Portugal.
Não certamente por acaso, constata-se diariamente que a desresponsabilização prolifera como erva daninha em terreno lavrado. Tanto da parte dos governantes, como dos governados. É uma gangrena que vai alastrando e que nos faz a nós, os chamados cidadãos, dizer mal dos políticos, e da política. Entre o encolher de ombros agoniado e o piscar de olhos cúmplice, é o descrédito na própria democracia que se instala.
Curiosamente, este desprezo pela política e pelos políticos, parece que pouco tem de novo. Guerra Junqueiro já falava deste fenómeno a propósito dos seus concidadãos: “e se a isto juntarmos um pessimismo canceroso e corrosivo, minando as almas, cristalizado já em formas banais e populares – tão bons são uns como os outros, corja de pantomineiros, cambada de ladrões, tudo uma choldra (…)”.
É preciso, como diz o Luis Antunes, e muito bem, “ um Estado forte, não actor de mercado, mas protector e incentivador do empreendedorismo e da sã concorrência. Um Estado simplificado e simplificador de processos. Um Estado assente na defesa dos interesses colectivos, mas potenciador da iniciativa individual”.
Para que ser português não seja mais, como escreveu Guerra Junqueiro, pertencer a um “povo em catalepsia ambulante, não se lembrando nem donde vem, nem onde está, nem para onde vai”.
Por último, só mais um reminder: o Estado somos todos nós. Qual monstro de Frankenstein, é da nossa responsabilidade. Que tal filho não nos devore, é o que eu desejo.
Clara Pracana, psicoterapeuta, consultora de organizações
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