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Blogue pessoal de Luís Antunes.  Espero que gostem.  Agradeço a vossa visita e possíveis comentários. 

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Bitácora personal de Luís Antunes. Espero que sea de su agrado.  Gracias por la visita y comentarios. 

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Some short stories published on Pateira by Luís Antunes

Alguns contos publicados por Luís Antunes, no Pateira

Segunda-feira
31Ago2009

A Alfacinha

Esta história é como tantas outras: já tem cabelos - não tem barba, porque há uma heroína, percebem? - de sobra e, por isso, por ser muito comprida, convém começar, porque o salário que recebo mal dá para a bucha.

E por falar em pobres, lá temos o casal do Bairro J, economicamente desfavorecidos não por terem o curso de psicologia - ele - e de politologia - ela -, mas por trabalharem num "call center" no centro de Moscavide. Ora acontece que ela - porque só elas disso são capazes - engravidou e acontece também que no pátio ao lado da barraca onde viviam, morava uma bruxa seguidora da política do arquitecto Ribeiro Telles e, como tal, tinha uma pequena mas repugnante horta citadina onde cultivava alfaces.

Blá mais blá, a grávida deu em desejos de alface, o psicólogo achou por bem rever uns apontamentos da faculdade e lá estava, preto no branco, na sebenta do Prf. Amaral Dias: tinha mesmo de ir roubar as alfaces à bruxa que, como é óbvio, o apanhou com a chamada boca na botija ou mão no molho das alfaces... e patati e patatá, vai-te lá embora que eu sou adepta do novo Código Penal, mas isto não fica assim, vou para os jornais e pardais ao ninho...  

Nascido o rebento, recebidos os 200 euros da praxe, apareceu a bruxa com umas pedopsiquiatras funcionárias do Tribunal de Família e lá vai a petiza - era uma e não um, e chamava-se Alfacinha - sob a custódia da bruxa em moderna família monoparental, com reportagem e choros em directo no Jornal de sexta-feira da TVI.  

Mais blá e blá, a Alfacinha viu-se privada dos seus direitos constitucionais numa barraca com ligação directa à baixa tensão da EDP, no alto de uma árvore mandada plantar no tempo das grandes obras do Dr. Pedro Santana Lopes, deixou crescer os cabelos e a bruxa trepava por eles acima todos os dias, só para ouvir a Alfacinha cantar as suas belas baladas escritas pelo Toni Carreira que as copiava de um determinado site da net.

Até que um belo dia - nas histórias, os dias são sempre belos, caso ainda não tenham reparado - apareceu o Grunge, caboverdiano que esteve na origem da criação dos Buraka Som Sistema - é dele a introdução do Sistema - e, ao ouvir a bela voz da Alfacinha, chamou e trepou pelos cabelos acima. E aqui abre-se um parêntesis para se perceber como funcionava isto do "elevador de cabelos" que não era feito pelo habitual carrega no botão, mas antes gritando para o alto da árvore:

- Alfacinha, Alfacinha, solta a tua cabeleira para eu subir a áurea escaleira... (Escaleira é escada em espanhol, para, de acordo com o pedido do Governo, procedermos à internacionalização da escrita portuga. Ah! E também dá jeito para rimar com "cabeleira").

É claro que a bruxa topou a marosca, subiu com uma cabeleira própria fornecida pela Rita do Sasson Vidal, daquelas para fazer extensões às da Caras, e vai daí, a barraca da Alfacinha virou Parlamento de tanta discussão, insultos e asneiras trocados em on e off pelo Grunge, pela Bruxa e pela Alfacinha.

A coisa só parou quando o Grunge resolveu ceder os direitos de imagem, - videoclips e Youtube incluídos - à bruxa, dividindo o resto - contratos de gravação, remunerações, material promocional tipo bonecas Alfacinhas com torre de som incluída e iPod - a mielas.

Nisto, a Alfacinha percebeu que durante anos tinha sofrido a exploração dos seus cabelos para a satisfação das necessidades de transporte de outrem e que agora queriam explorar também a sua imagem e voz. "Pelos vistos, a rapacidade não tem só a ver com o sexo", concluiu com um suspiro. E, pirou-se da cena, indo oferecer os seus préstimos ao Zeinal Bava da PT que ela sabia andar à procura de conteúdos para a sua luta privada com a Zon.

FIM

Terça-feira
25Ago2009

Eustanásio Cafageste

Há muito, muito tempo, mais precisamente no tempo em que os corninhos de Manuel Pinho estavam a despontar, vivia na Rinchoa, o caixeiro-fixo Manel. Fixo, porque ao contrário do outro, o viajante morto às mãos de Arthur Miller, o Manel trabalhava nas caixas dos hipers de Belmiro de Azevedo. E por isso era eufemisiticamente qualificado de "economicamente muito desfavorecido". Mas a filha, a Vânia Vanessa,dizia que o pai era mais teso do que um carapau.

Acontece que o Manel vivia sòzinho com a petiza - a sua Maria enfeitara-lhe a testa, fugindo para parte incerta com o "Pilão", mocetão bem dotado que era segurança no Motel Requente da Abrunheira - e tinha muita vergonha da sua pobreza, em vez de ter raiva do sistema económico que tanto o marginalizara e estava sempre à procura de um modo de enriquecer facilmente.

Ouvira na televisão da tasca um senhor falar sobre a rentabilização dos activos e pensara logo em colocar a Vânia Vanessa como escort na casa da Amélia, mas a moça falava muito mal o brasileiro e fôra logo rejeitada. Assim, pensara em arranjar um Jotinha do PS ou, quando muito, do PSD, para marido da filhota. O Manel era um homem que matutava muito em moldes machistas e antiquados, mas sabia que quem ficava sempre com a melhor parte eram aqueles que repartiam.

E, com tão indigno fim em vista, pôs a correr o rumor de que a filha tinha o dom de transformar em ouro puro a vulgar palha do campo. O boato chegou logo aos ouvidos de Jacinto, promissor JPS de Albarraque, que convidou a Vânia Vanessa a assistir às comemorações do 1º de Maio, tendo-a encerrado, com um fardo de palha, na sub-cave do prédio onde partilhava um Tê-Zero com os pais.

Trancada na mal-cheirosa sub-cave, a Vânia Vanessa sentou-se no chão a chorar. Nunca o carácter explorador da sociedade patriarcal tinha sido para ela tão evidente. Estava lavada em lágrimas e toda ranhosa quando na dita s/c lhe apareceu um minúsculo e velho homem, decerto aparentado com o António Vitorino, que lhe disse:

-Porque choras meu anjo?Porque não consigo transformar esta palha em ouro.

-Mas porque estás a chorar?Porque é impossível. Tu és algum sobredotado ou coisa assim?

-Filha, pensas demais com a parte esquerda do teu cérebro. Mas, posso resolver-te o problema se me deres em troca o que te pedir, ok?Mau, olha que eu não faço serviço completo, percebes?

Bom, mas como a necessidade era muita e de puta já a Vânia Vanessa tinha a cartilha completa, aceitou. Resulta que o homenzinho era especializado em agricultura, sobretudo em obtenção de subsídios do Ministério da Agricultura e da CE, e conseguiu, com a ajuda da Cooperativa dos Agricultores de Massamá, transformar a palha em várias tranches do QREN e, com o que sobrou dos vários mihões recebidos e dados em "pagamentos de favor" aos vários intervenientes e partidos, fez com que a Vânia Vanesa ficasse rica e pudesse casar com o Alberto do Bloco em vez do Jacinto da JPS.

- E agora, minha filha, tens de me pagar o favor...

Vânia Vanessa começara a desapertar a braguilha do homúnculo, quando este lhe disse: Posso dispensar-te da tua obrigação, se acertares no meu nome.

- Já sei, chamas-te Eustanásio Cafageste. E, zum! O homem minúsculo evaporara-se, mas Vânia Vanessa ainda o ouvira perguntar: Como é que adivinhaste?

Não fora o facto de Vânia Vanessa ter guardado o talão de depósito do banco suíço em que aparecia o seu nome como sobrinha de Eustanásio Cafageste e a vida podia ter-se-lhe complicado até porque o Alberto, como bom Bloquista que se preze, não era favorável à partilha privada de bens, muito menos à exploração de proletárias do sexo por homens minúsculos.

FIM

Quinta-feira
20Ago2009

Caracóis d'Ouro

A história parecia simples: Uma menina, Caracóis de Ouro, entra abusivamente na casa dos Três Ursinhos, prova as sopas que estão na mesa, come a melhor, desfaz as camas e dorme na que mais lhe agrada.

A moral também parecia simples: Quando a economia atinge o seu estado ideal, crescimento, pleno emprego e sistema financeiro com rédea curta,deve-se impedir a tudo o custo que os economistas a estraguem.

Mas, nem tudo o que luz, são caracóis de ouro... por detrás desta inocente - aparentemente - história infantil está a mão do Jóker de Gotham City! A seguir reproduzimos, de fonte segura do Ministério Público, os diálogosgravados pelo telemóvel do Bebé Urso, com escutas autorizadas por aqueleJuíz que está por detrás do vidro, logo à esquerda de quem entra no novíssimo edifício de escritórios do Campus da Justiça na Expo:

(Os ursos chegaram a casa, sentaram-se - no chão, claro - e começaram a tomar o pequeno-almoço, mas pararam).

Esta papa tem um cheiro esquisito, disse o Papá Urso.

Pudera, para poupar a guita, obrigas-me a comprar produtos da tanga no Lidl, como é que é queres que isto saiba bem? Disse a Mamá Ursa.

Daahhh! Que nojo! Disse o puto que aprendera estas expressões na EB34 da Musgueira.

Desconfiados foram para a sala, onde o cheiro era ainda mais intenso e, seguindo o que parecia um rasto de odor a almíscar e sovaco, chegaram ao quarto.

Daahhh! Cheira a bacalhau, que nojo! O puto tivera um 1 a Português...

Pois, mas não é! Há coleiras tranzistorizadas debaixo dos nossos travesseiros. Disse o esperto Papá Urso que acabara de obter a sua licenciatura nas Novas Oportunidades.

Pois é! E debaixo da minha cama está uma gaja humana com caracóis dourados e é bué da boa! Disse o puto, desconhecendo que o que está na moda não é o hetero, mas sim o homo. Tivera 8 negas, mas passara de ano, por causa, disseram-lhe,das "estatísticas" que ele julgava serem as chefes das sôras dotoras.

Os ursos rugiram - aprenderam no Twitter - e atiraram-se à Caracóis de Ouro com garras e dentes e zás! Devoraram-na enquanto o diabo esfrega um olho! Não esfrega os dois, porqueé zarolho, como é universalmente sabido.

Ócotas pá, eu pensavamos que éramos vegetarianos! Quem falou?

E somos - disse o Eng. Papá Urso - mas estamos sempre prontos a experimentar coisas novas. A flexibilidade multicultural é apenas mais um dos dos benefícios da democracia, quando esta é usufruida em maioria.

FIM

Alto e pára o baile! E onde é que está o Joker, perguntam vocês. E eu sei lá!

Terça-feira
11Ago2009

Os Três Porquinhos

Era uma vez três porquinhos chamados América, Europa e China. Cada um deles tinha uma casa, o que é perfeitamente compreensível, até porque hoje qualquer badameco tem casa própria graças ao "subprime". Uma das casas era de palha, outra de madeira e a outra de barro e trepadeiras amassados em forma de tijolo que é como quem diz, "high-tech com pés-de-barro". E pronto, viviam muito felizes até porque, de vez em quando, um ia a casa do outro e este à do outro e era tudo assim a modos que uma orgia de mariconços. Ah! infelizmente os porquinhos não podiam casar, porque não havia ainda casamento com separação de bens.

Entretanto apareceu o F--D-P-- do lobo que se chamava Maddoff & Cia, porque era de uma grande família deF--s D-P-- que queriam lixar os porquinhos fosse de que maneira fosse, mesmo que lhes tivessem que sacar as tais casas do "subprime" e pô-los a todos no despejo, por "default". Este Maddoff & Cia era, no fundo, um tipo cheio de ideas expansionistas e quando viu os porquinhos numa dessas tais orgias, ficou muito perturbado tanto no sentido físico como no sentido ideológico, até porque era neoliberal até à raíz dos pêlos, porque os lobos, como é sabido, não têm cabelo, só guedelhas.

Bom, já sabem que o gajo lixou o América que era o porquinho da palhota, logo de seguida atacou o Europa e lá se foi a cabana e, quando chegou à casa do China -não o China de Vilamoura que é amigo do Figo, mas o outro, o dos jogos olímpicos- tentou, tentou, tentou... e nada!

Nada, porque desta feita os três porquinhos responderam entoando canções de solidariedade e escrevendo cartas de protesto para as Nações Unidas. Vai daí, o loboMaddoff & Cia ficou furioso e por isso inspirou e soprou, inspirou e soprou, até que se agarrou ao peito e caiu fulminado por um ataque cardíaco.

Logo a seguir e depois de dançarem o Lago dos Cisnes à volta do cadáver do lobo -bem vos tinha dito que eram uns porquinhos mariconços- instauraram uma democracia socialista modelar, com educação gratuita, cuidados de saúde universais e habitação acessível para todos, isto é, construção a custos controlados. Mas votaram contra os casamentos de gays e lésbicas, por causa da tal falta de separação de bens, porque eles bem que eram mariconços, mas não parvos.

Mais se declara que o lobo desta história foi uma invenção metafórica do autor, por encharcamento de vinho tinto. Nenhum lobo de verdade foi molestado na feitura desta história. Sobretudo os lobos do ramo Europeu da famíliaMaddoff & Cia.

Segunda-feira
10Ago2009

Machismo

Estava a Capuchinho Vermelho a debater-se em feroz luta conta o Lobo Mau, quando um lenhador (ou técnico de combustível fóssil, como preferia que lhe chamassem) irrompeu, de machado em punho, pela casa da avó.

- Que pensa o cavalheiro que está a fazer? - perguntou, irada, a Capuchinho Vermelho.

- Entrar aqui como um homem de Neanderthal, deixando que a sua arma pense por si! - Machista! Como se atreve a presumir que mulheres e lobos são incapazes de resolverem os seus problemas sem a ajuda de um homem? Ora essa!

Ao ouvir o discurso arrebatado da Capuchinho Vermelho, a Avozinha saltou de dentro da boca do Lobo Mau e, agarrando no machado do lenhador, zás! cortou-lhe a cabeça.

Assim, a Capuchinho Vermelho, o Lobo Mau e a Avozinha decidiram logo ali formarem uma família alternativa, baseada no respeito mútuo e na cooperaçãoand... they lived happy forever!

Segunda-feira
02Fev2009

Audiência Prévia

Se escutar Deus é falarmos com a nossa alma, isto quer dizer que consigo falar contigo, pois tú deves ser a dona da minha alma, ou não? Afinal é para ti que nascemos, é a ti que questionamos quando filosofamos, quando dizemos - tú sabes, da boca para fora! - qual é o objectivo desta nossa breve passagem, só sei que nada sei, cogito ergo sum...

Não falas, ou sou eu que não sei escutar, que não conheço a raíz judaica da palavra? Sabes que sei distinguir entre ouvir - o ganir do cão, o som do trovão - e escutar, saber quem fala e usar a inteligência para entender o fraseado. Mas tú não falas antes da hora que só tú conheces ou escolhes.  Até lá, estás sempre presente, és a eternidade absoluta, não aquela romântica do diamante... 

Todos te conhecemos, todos temos encontro marcado contigo, e por isso te tememos ou preferimos ignorar-te. Também eu era assim, mas agora desafio-te, agora quero escutar-te e já descobri como pôr-te a falar.  Não vens, não chegas determinado dia... tú não obedeces a nada nem a ninguém, não vais por aí... estás sempre presente, impávida e serena.  E nem sequer pestanejaste quando li o romance das tuas intermitências.  Estás acima da nossa imaginação, acima da nossa criatividade, dos prémios, da riqueza, das vaidades em que nos atolamos.  És, sem mais!

Mas o meu problema não é contigo.  Não, não te menosprezo, descansa.  Refiro-me a mim e ao nosso "encontro de contas".  Sim, à minha "accountability" perante ti.  É isso que me espera, não é?  Por isso e à espera disso estás aqui comigo, meu fiel cão de guarda. A Grande Juíza, infalível, sem tribunal, oficial de justiça, advogado ou acusador público.  Tú és o único tribunal que nem de causa precisa.  Deste-ma, mal nasci.  

E sabes qual é o meu medo, perante ti?  Não conheço a tua balança, não sei que pesos lá colocar.  A minha estupidez, a minha forma de vida, seja lá isso o que fôr, os meus sonhos não realizados, os meus mal-amados, a minha falta ou excesso de ambição, a minha honradez?   Entendes-me, ou isto para ti é o nada?  Pois... não falas... eu sei!

Mas estás mais perto de mim, admite.  Não no tempo, - isso, só tú sabes - mas no espaço. Espaço/tempo, o Einstein procurou-te por aí, enlouquecido pela dúvida.  Gostaria de saber se foi absolvido ou condenado, mas o teu tribunal é privado.  Mas eu, sem ânsias de procura, já ganhei um pouco da tua proximidade, mesmo que não te agrade.  Desculpa-me o atrevimento, mas é que vamos ter de conversar, nessa dia, local e hora da tua preferência.

Espera, não acabei! Desprezo o teu silêncio, sabias?  E não me escuso a chamar-te pelo nome, minha morte.  E não acredito que me faças pagar por este desafio.  Se eu sou teu, tú és só minha, de mais ninguém!  Como se fôssemos amantes... somos?

Quarta-feira
16Abr2008

Amuse Buche

boneca_porcelana.jpgPor uma mulher que não nos conheça, tudo fazemos para a conhecer, na esperança de que ela, assim, nos possa compreender. São as leis da gramática, da síntaxe, da semântica.  Procura-se a compreensão.  Estranho é quando a compreendemos, sem a conhecer, e ela nos conhece, sem nos compreender.  Mas, já dizem os linguistas, que se pode falar sem se conhecerem as regras da linguística.  Ou, como o Cristiano Ronaldo, cuja habilidade no pontapear do esférico não confere nem exige nenhum conhecimento das leis da mecânica.  Por isso, por ela me apaixonei. 

Boneca de porcelana com cérebro de Einstein é coisa que não existe; ou uma ou outra, ou então é pura confusão.  Porque este ser e, ao mesmo tempo não ser, não é questão se ponha. É peça Shakespeariana.  E, no entanto, existe. As mulheres, supostamente, não são assim. Pensavam-no os meus avôs, talvez o meu pai. E eu também, que a esta fatalidade do ADN ninguém escapa. 

E é pelo dual que amo esta mulher.  Porque do eu e do ela - que esse sim conheço - forjo o número três e começa o meu plural. É a mística do sim e do não, do fogo e da água, do riso e do silêncio.  E, a partir daí, cresceu o meu amor ou, como diria Alberoni, nasceu o meu estado de enamoramento.

Mas, "hélas, les amoureux sont seuls au monde...", fiquei eu também só, perdido o meu elixir da eterna juventude e da pedra filsofal.  Porque ela, boneca de porcelana com cérebro de Einstein, mulher-sonho de qualquer homem, Alice no Deserto Namibiano, é mulher de um só.  Que não eu. Eu vivo a libertá-la do seu passado, a aligeirar-lhe a dor com a minha gentileza dolorida.  Dou-lhe o prazer de se sentir amada.

Já se sabe que quanto maior é a tarefa, tanto mais longa é a viagem e menos provável a chegada.  É assim o meu imaginário da boneca de porcelana com cérebro de Einstein: é uma exploração do possível feita a partir do impossível.  A minha história reduz-se assim à história daquela viagem, sem que haja um porto de abrigo ou horizonte de chegada. Amuse buche do meu cocktail sentimental.

E por isso eu amo uma mulher que não conheço, que nunca vi ou ouvi, com corpo de boneca de porcelana e cérebro de Einstein.

Sexta-feira
08Dez2006

Montras de Natal

Montra_natal.jpg- Táxi!  É para a Av. da Liberdade, junto ao Tivoli.

- Uma última compra antes do Natal...

- Não.  Uma última reunião, antes do Natal.

- Nem todos somos iguais.

- Pois não.  Eu vou sentado atrás...

- Não acredita, então, na igualdade entre os seres humanos...

- Você o disse.

- Uns têm tudo e outros nada têm.  Uns sentam-se atrás e outros conduzem?   Isto, conduzir em Lisboa, em Dezembro... haja paciência!  Já nem a faixa do BUS é respeitada!

- ...aha...

- Mas esta questão da igualdade não pode ser aceite em termos racionais.  Seria não aceitarmos a diferença.  Que pode ser e é, muitas vezes, inata.  A cor da pele, a religião, a herança genética.  Os homens das Luzes quiseram matar Deus e Este, deu-lhes a ciência! 

-  Não acha injusto conduzir um táxi, ser chófer?

- Ah, a Justiça!  Essa não quer saber da igualdade, sabia?

- Ai, não!?

- Não.  Interessa-lhe, tão só, a igualdade de condições.  Você, pelos vistos, soube aproveitá-las melhor do que eu...

- Pelos vistos.  Talvez não tenha sido tão racionalista como você.  Sou mais Sartriano;  nunca acreditei em destinos pré-concebidos.

- Este semáforo tem o verde desligado!  Acredita, então, na liberdade individual, mas enquadrada num paradigma social?

- Fala do sucesso?

- Isso é, para si, um paradigma?

- Claro

- Então viva a liberdade.  A sua liberdade.  Aí atrás. 

-

- Ande lá, minha senhora, páre de olhar para as montras de Natal.  Há quen tenha pressa, sabia?

- Há quem se esqueça de que tem de conduzir.

- Verdade, meu caro freguês, verdade.  A propósito, o meu amigo é do Benfica  ou do Sporting?

Quinta-feira
09Nov2006

Inerte

inerte.jpgNos teus ombros sentes o ligeiro aperto dos braços dela, mas a respiração quase que não se ouve.  Mas ela está lá, nua, debaixo do teu corpo.  Vieram-te à memória os abraços das partidas, mas faltava-te o ruído dos aeroportos e cais de embarques.  Ao redor de ti, só o silêncio que não queres, não deves interromper. 

Sabias que estavam ambos cansados não por força de darem, mas pela falta da dávida.  Que sentido faziam aqueles dois corpos abraçados?  Nem desespero havia, apenas uma longa espera, da derrota?

Não te disse ela, tantas vezes, que o medo a paralisava,  que o amor entre ambos estava estagnado, que precisava de alimento?  Sim, mas a culpa não era tua.  Nunca tinhas amado tanto uma mulher.  Nem imaginavas que te fosse possível amar assim.  Aquela mulher que criastes estava a fugir-te, entre os dedos, amando-te sofregamente. Mas, abandonando-te.  Fraca, sim, era o que dela a tua raiva, desespero? te fazia pensar.  Meu Deus, como detestavas os vencidos!

Mas, o que é que ela quer?  Continuar com a sua vidinha recheada de certezas e monotonias?  Continuar peça de mobiliário num lar de bonecas e esterótipos de felicidade?  Ponto finito na estatística da imoralidade vigente?  Ah, os poetas não conhecem a mesquinhez da realidade, da segurança, do futurozinho adquirido junto do caixote da TV, das revistas cor-de-rosa, da ida à praia, das festas de aniversário, dos natais em família... ainda há?.  Esses sonhos não são poéticos, são porcaria.  Merda de vida!

O amor é infinito, posto que é chama!  

Ó senhor poeta, não conhece o interruptor da luz?  Carrega e acende, carrega e apaga.  Sem medo de queimaduras, sem tempo precioso perdido a ver o carvão nascer da madeira ardente.  Morreu, senhor poeta, você morreu!

- Vens?

Olhas para ela... o sutiã branco cobrindo os seios que adoras beijar.  Brinca com a blusa.  Castanha, fina, em bico.  Dobra-a, desdobra-a, olha para ti e oferece-te um sorriso.  Condescendente.  É lindo aquele rosto.  De mãe.

- Fico

Lutar, para quê?  Há mar e mar, há ir e voltar, não é?  Mas tens medo do fim... poderá não haver mais mar.  Sobretudo esse que tu queres, sereno, acolhedor.  Estás farto de lutar contra as ondas.  Era bom boiar... para sempre, até ao fundo... da terra.

Absurdamente inerte.

Quarta-feira
04Out2006

Se Queria...

noite3.jpgÉ esta a famosa e estúpida posição do escritor...  debruçado sobre a página em branco ou, modernamente, a olhar, em frente, para um ecrã vazio? 

Não.  É uma daquelas frases feitas nascida de algum "best-seller".  Porque nunca ninguém diz ao escritor: faz, mancha a folha, enche o ecrã.  Porquê e para quê, pergunto-me eu que não sou o tal escritor, não tenho qualquer obrigação nem necessidade urgente de fama.  Afinal o que quero eu diante de um ecrã?  Contar a minha vida, exorcizar algum fantasma, ou simplesmente passar tempo?  De tudo um pouco, pois encontro um certo fascínio em olhar para os meus dedos a carregar em teclas pretas, sarapintadas com caracteres brancos. 

São assim os escritores levianos;  divertem-se a escrever palavras e estão-se nas tintas para os leitores.  Se calhar, os sérios são iguais.

Será isto um exercício de solidão que nunca se quis ou a constatação de que o aquele "amigo" dizia tinha um fundo de verdade:  escreve um livro, tens jeito, para o resto não, falta-te a motivação , não nasceste para isso, a tua vida foi um engano. E, o livro, é refugo, caixote do lixo?

E aquela frase de boca desconhecida:  quando é que vai pensar em si, viver a sua vida?  Já ouvi isto antes... mas esqueci?

Abre os olhos e vê como vias quando eras inconsciente do sucesso ou do fracasso, mas não da virtude humana.  Porque nessa altura ela existia e chamava-se amizade.  Hoje é apenas um jogo de interesses, de utilidades, de bens de troca.  Tudo e nada é teu, porque não podes partilhar.  Como tantas vezes fizeste com os teus sentimentos e com as tuas mulheres.  Um breve período de paixão bastava.  Depois vinha o silêncio.

- Três

- O quê? 

- É a tua terceira palavra esta noite... 

E já eu estava a parar o carro, viagem acabada.  Merda, - porque é que merda me faz lembrar estas escritoras parvas de hoje? - a gaja tinha razão e tudo isto porque nunca te conformaste contigo mesmo, sempre à procura do julgamento feminino, do conforto de saber-se querido.  Ah, mas foi bom, não nego.  Era um viciado nesse jogo.

Mas agora que é tarde, muito tarde, perguntas-te, afinal, o que é o amor?  Como se deve viver?  Porra, não sei. 

Mas queria viver a minha vida.  Se queria...