Some short stories published on Pateira by Luís Antunes

Alguns contos publicados por Luís Antunes, no Pateira

Amuse Buche

Posted on Quarta-feira, Abril 16, 2008 at 10:59AM by Registered CommenterLuís Antunes | Comments Off

boneca_porcelana.jpgPor uma mulher que não nos conheça, tudo fazemos para a conhecer, na esperança de que ela, assim, nos possa compreender. São as leis da gramática, da síntaxe, da semântica.  Procura-se a compreensão.  Estranho é quando a compreendemos, sem a conhecer, e ela nos conhece, sem nos compreender.  Mas, já dizem os linguistas, que se pode falar sem se conhecerem as regras da linguística.  Ou, como o Cristiano Ronaldo, cuja habilidade no pontapear do esférico não confere nem exige nenhum conhecimento das leis da mecânica.  Por isso, por ela me apaixonei. 

Boneca de porcelana com cérebro de Einstein é coisa que não existe; ou uma ou outra, ou então é pura confusão.  Porque este ser e, ao mesmo tempo não ser, não é questão se ponha. É peça Shakespeariana.  E, no entanto, existe. As mulheres, supostamente, não são assim. Pensavam-no os meus avôs, talvez o meu pai. E eu também, que a esta fatalidade do ADN ninguém escapa. 

E é pelo dual que amo esta mulher.  Porque do eu e do ela - que esse sim conheço - forjo o número três e começa o meu plural. É a mística do sim e do não, do fogo e da água, do riso e do silêncio.  E, a partir daí, cresceu o meu amor ou, como diria Alberoni, nasceu o meu estado de enamoramento.

Mas, "hélas, les amoureux sont seuls au monde...", fiquei eu também só, perdido o meu elixir da eterna juventude e da pedra filsofal.  Porque ela, boneca de porcelana com cérebro de Einstein, mulher-sonho de qualquer homem, Alice no Deserto Namibiano, é mulher de um só.  Que não eu. Eu vivo a libertá-la do seu passado, a aligeirar-lhe a dor com a minha gentileza dolorida.  Dou-lhe o prazer de se sentir amada.

Já se sabe que quanto maior é a tarefa, tanto mais longa é a viagem e menos provável a chegada.  É assim o meu imaginário da boneca de porcelana com cérebro de Einstein: é uma exploração do possível feita a partir do impossível.  A minha história reduz-se assim à história daquela viagem, sem que haja um porto de abrigo ou horizonte de chegada. Amuse buche do meu cocktail sentimental.

E por isso eu amo uma mulher que não conheço, que nunca vi ou ouvi, com corpo de boneca de porcelana e cérebro de Einstein.

Montras de Natal

Posted on Sexta-feira, Dezembro 8, 2006 at 03:59PM by Registered CommenterLuís Antunes | Comments Off

Montra_natal.jpg- Táxi!  É para a Av. da Liberdade, junto ao Tivoli.

- Uma última compra antes do Natal...

- Não.  Uma última reunião, antes do Natal.

- Nem todos somos iguais.

- Pois não.  Eu vou sentado atrás...

- Não acredita, então, na igualdade entre os seres humanos...

- Você o disse.

- Uns têm tudo e outros nada têm.  Uns sentam-se atrás e outros conduzem?   Isto, conduzir em Lisboa, em Dezembro... haja paciência!  Já nem a faixa do BUS é respeitada!

- ...aha...

- Mas esta questão da igualdade não pode ser aceite em termos racionais.  Seria não aceitarmos a diferença.  Que pode ser e é, muitas vezes, inata.  A cor da pele, a religião, a herança genética.  Os homens das Luzes quiseram matar Deus e Este, deu-lhes a ciência! 

-  Não acha injusto conduzir um táxi, ser chófer?

- Ah, a Justiça!  Essa não quer saber da igualdade, sabia?

- Ai, não!?

- Não.  Interessa-lhe, tão só, a igualdade de condições.  Você, pelos vistos, soube aproveitá-las melhor do que eu...

- Pelos vistos.  Talvez não tenha sido tão racionalista como você.  Sou mais Sartriano;  nunca acreditei em destinos pré-concebidos.

- Este semáforo tem o verde desligado!  Acredita, então, na liberdade individual, mas enquadrada num paradigma social?

- Fala do sucesso?

- Isso é, para si, um paradigma?

- Claro

- Então viva a liberdade.  A sua liberdade.  Aí atrás. 

-

- Ande lá, minha senhora, páre de olhar para as montras de Natal.  Há quen tenha pressa, sabia?

- Há quem se esqueça de que tem de conduzir.

- Verdade, meu caro freguês, verdade.  A propósito, o meu amigo é do Benfica  ou do Sporting?

Inerte

Posted on Quinta-feira, Novembro 9, 2006 at 03:59PM by Registered CommenterLuís Antunes | Comments Off

inerte.jpgNos teus ombros sentes o ligeiro aperto dos braços dela, mas a respiração quase que não se ouve.  Mas ela está lá, nua, debaixo do teu corpo.  Vieram-te à memória os abraços das partidas, mas faltava-te o ruído dos aeroportos e cais de embarques.  Ao redor de ti, só o silêncio que não queres, não deves interromper. 

Sabias que estavam ambos cansados não por força de darem, mas pela falta da dávida.  Que sentido faziam aqueles dois corpos abraçados?  Nem desespero havia, apenas uma longa espera, da derrota?

Não te disse ela, tantas vezes, que o medo a paralisava,  que o amor entre ambos estava estagnado, que precisava de alimento?  Sim, mas a culpa não era tua.  Nunca tinhas amado tanto uma mulher.  Nem imaginavas que te fosse possível amar assim.  Aquela mulher que criastes estava a fugir-te, entre os dedos, amando-te sofregamente. Mas, abandonando-te.  Fraca, sim, era o que dela a tua raiva, desespero? te fazia pensar.  Meu Deus, como detestavas os vencidos!

Mas, o que é que ela quer?  Continuar com a sua vidinha recheada de certezas e monotonias?  Continuar peça de mobiliário num lar de bonecas e esterótipos de felicidade?  Ponto finito na estatística da imoralidade vigente?  Ah, os poetas não conhecem a mesquinhez da realidade, da segurança, do futurozinho adquirido junto do caixote da TV, das revistas cor-de-rosa, da ida à praia, das festas de aniversário, dos natais em família... ainda há?.  Esses sonhos não são poéticos, são porcaria.  Merda de vida!

O amor é infinito, posto que é chama!  

Ó senhor poeta, não conhece o interruptor da luz?  Carrega e acende, carrega e apaga.  Sem medo de queimaduras, sem tempo precioso perdido a ver o carvão nascer da madeira ardente.  Morreu, senhor poeta, você morreu!

- Vens?

Olhas para ela... o sutiã branco cobrindo os seios que adoras beijar.  Brinca com a blusa.  Castanha, fina, em bico.  Dobra-a, desdobra-a, olha para ti e oferece-te um sorriso.  Condescendente.  É lindo aquele rosto.  De mãe.

- Fico

Lutar, para quê?  Há mar e mar, há ir e voltar, não é?  Mas tens medo do fim... poderá não haver mais mar.  Sobretudo esse que tu queres, sereno, acolhedor.  Estás farto de lutar contra as ondas.  Era bom boiar... para sempre, até ao fundo... da terra.

Absurdamente inerte.

Se Queria...

Posted on Quarta-feira, Outubro 4, 2006 at 03:59PM by Registered CommenterLuís Antunes | Comments Off

noite3.jpgÉ esta a famosa e estúpida posição do escritor...  debruçado sobre a página em branco ou, modernamente, a olhar, em frente, para um ecrã vazio? 

Não.  É uma daquelas frases feitas nascida de algum "best-seller".  Porque nunca ninguém diz ao escritor: faz, mancha a folha, enche o ecrã.  Porquê e para quê, pergunto-me eu que não sou o tal escritor, não tenho qualquer obrigação nem necessidade urgente de fama.  Afinal o que quero eu diante de um ecrã?  Contar a minha vida, exorcizar algum fantasma, ou simplesmente passar tempo?  De tudo um pouco, pois encontro um certo fascínio em olhar para os meus dedos a carregar em teclas pretas, sarapintadas com caracteres brancos. 

São assim os escritores levianos;  divertem-se a escrever palavras e estão-se nas tintas para os leitores.  Se calhar, os sérios são iguais.

Será isto um exercício de solidão que nunca se quis ou a constatação de que o aquele "amigo" dizia tinha um fundo de verdade:  escreve um livro, tens jeito, para o resto não, falta-te a motivação , não nasceste para isso, a tua vida foi um engano. E, o livro, é refugo, caixote do lixo?

E aquela frase de boca desconhecida:  quando é que vai pensar em si, viver a sua vida?  Já ouvi isto antes... mas esqueci?

Abre os olhos e vê como vias quando eras inconsciente do sucesso ou do fracasso, mas não da virtude humana.  Porque nessa altura ela existia e chamava-se amizade.  Hoje é apenas um jogo de interesses, de utilidades, de bens de troca.  Tudo e nada é teu, porque não podes partilhar.  Como tantas vezes fizeste com os teus sentimentos e com as tuas mulheres.  Um breve período de paixão bastava.  Depois vinha o silêncio.

- Três

- O quê? 

- É a tua terceira palavra esta noite... 

E já eu estava a parar o carro, viagem acabada.  Merda, - porque é que merda me faz lembrar estas escritoras parvas de hoje? - a gaja tinha razão e tudo isto porque nunca te conformaste contigo mesmo, sempre à procura do julgamento feminino, do conforto de saber-se querido.  Ah, mas foi bom, não nego.  Era um viciado nesse jogo.

Mas agora que é tarde, muito tarde, perguntas-te, afinal, o que é o amor?  Como se deve viver?  Porra, não sei. 

Mas queria viver a minha vida.  Se queria...

O Amigo João

Posted on Quarta-feira, Julho 19, 2006 at 02:59PM by Registered CommenterLuís Antunes in , | Comments Off

igrejafermentelos.jpgHá muito, muito tempo atrás...bom, para sermos mais precisos, no tempo em que todos os animais falavam e não como agora em que só os burros o fazem, existia pelas bandas da Pateira um personagem famoso que poderíamos designar, sem temor a exagerar, um ícone da cultura popular, se bem que esta mania que alguns artistas têm de representar a figura humana – daí o rótulo de figurativos – tenha o seu quê de controverso, não vá a alma fugir para a tela ou o Supremo Ser pensar que alguém lhe quer roubar a imortalidade

Não encontro melhor maneira de vos retratar tal figura - por ventura é em tais alhadas que se descobre a careca ao presumido escritor – do que filmá-lo em plena acção, pois já se sabe que a fotografia apenas capta o instante, o que nos dias televisivos de hoje é pouca, muito pouca coisa, dir-se-ia tralha do passado.  Então é assim:

A acção decorre no “set” - ou cenário em bom Português – do adro da Igreja de Fermentelos, num Domingo qualquer, com um sol radioso (poupa-se na iluminação) e com os devotos a saírem da respectiva Missa (poupa-se aqui na figuração e contenta-se o Padre que vê o recinto cheio como nunca); as conversas parecem animadas mas imperceptíveis (poupa-se, sem diálogos, no salário do guionista) e, ao longe, na rua dita de principal, surge uma figura masculina toda de preto, chapéu incluído, a pedalar garbosamente – seja lá o que isso fôr – na sua pasteleira - eufemismo negativo para bicicleta - toda pintada de preto e alguma ferrugem à mistura, que isto os anos corroem, por assim dizer.

É o Amigo João a quem também os anos não poupam, veja-se a cara cheia de pregas, outras que não aquelas que enfeitam os vestidos e também as calças - que as há para todos - que se passeiam no já referido adro.  Voltam-se as cabeças e, figurantes em uníssono, dizem alto e bom som:

- Bom dia, Amigo João!

E responde assim o nosso bicipédico, com voz de Plácido Domingo:

- Fo_ _ - se lá o Amigo. Conhecido e de há pouco!

A palavra que me ocorre, sentado convosco nesta imaginária plateia, é despautério, porque como já se sabe, tenho paixão – ou será fetiche? – por estes desarranjos da língua pátria.  Então é assim que se responde ao carinho do povo, Amigo João?

Pois esta insistência no Fo_ _ -se lá o Amigo! não é aquilo que vos parece, mas antes o embrião do que poderíamos designar de nova Ética da Amizade, entendida pela relação da Moral que existe em nós mesmos com a Felicidade dos outros.

Sem necessidade de recorrermos ao pensamento do grande teórico da racionalidade da Ética, o senhor Kant, percebe-se facilmente que por detrás da primeira parte desta famosa frase do Amigo João está o correcto entendimento da virtude da saudação com que o povo o brinda e na segunda está, é bom de ver, o cuidado do Amigo para com o bem estar moral dos outros, aquilo a que os verdadeiros latinos chamavam de “salus moral”.

Não vos restem dúvidas que nestas paragens da Pateira ocorrem, de quando em vez, grandes feitos civilizacionais.  Ou como diria Bocage ou um  outro que tal: de uma fraca monteira, por vezes, sai um bom coelho.

A Pedra Cúbica

Posted on Sábado, Junho 24, 2006 at 10:30AM by Registered CommenterLuís Antunes in , | Comments Off

 

simbolo20ma3f3f3f3fo1.gifNada se revela perante olhos estranhos ou fechados que possa dar indicação daquilo que existe para lá daquela simples porta. Não há imagens, avisos de proibição de fumar, placas de “proibida a entrada a pessoas estranhas ao serviço”, nenhuma sinalética, como hoje se diz. E, no entanto, a porta existe.

Separa, divide o profano do sagrado, sendo que aqui o sagrado não consubstancia outra forma que não a etimológica, isto é, o terreno do Templo.

E é isso que aquela pequena sala representa no seu formato quandrangular, ou mais pròpriamente rectangular, pois que o arquitecto que a concebeu tem título começado por letra minúscula.

A sala é simples, discreta, despojada de adornos. Mas não de símbolos, pois estamos no reino da simbologia. A luz, essa, é um bem escasso. Apenas uma migalha de trémulas velas dá contorno aos corpos que não às almas. Sombras e vultos a povoam, como na Caverna do Platão. E no entanto, e contrariamente ao ensinamento do filósofo, é lá dentro que todos vão procurar a luz. Paradoxo, ou verdade universal?

TRUZ, TRUZ, TRUZ,

- Quem vem lá?

- É o Irmão Inocêncio, Venerável Mestre

- Irmão Guarda Interno, manda entrar ritualmente o Irmão Inocêncio e pede-lhe para se colocar à ordem, pois está entre nós o Muito Respeitável Grão Mestre.

- Irmão Inocêncio, vens de tanga? Que é feito do teu smoking, das luvas e do avental?

- Ficaram no prego, Venerável Mestre; os profanos foram-nos à Loja e desataram a cortar em tudo; ainda recorremos ao auxílio do Grande Conselho Federativo, mas os filhos das trevas deram a volta ao Texto. Ficou só o Irmão Tomás a pregar no deserto.

- Como assim? Outra revolta do Sino?

- NÓS NÃO SABEMOS DE NADA!

clama a Assembleia em coro

- Silêncio!

pede o Venerável Mestre da Loja

- Não, Venerável Mestre; aos do Sino, os filhos das trevas até o badalo querem arrancar.

- Bem que o merecem depois das modernices que quiseram introduzir no nosso Ritual. Então queres dizer que para os renegados há agora mão de ferro?

- Não é bem assim, Venerável Mestre; eu diria antes que caíram, como nós, nas malhas da rede

- Que nem um cardume de peixes, ah?

- Pelo Grande Arquitecto do Universo, não me fale em peixes, Venerável Mestre!

- Não me digas que não aprecias um bom cherne!

- Ai de nós, Venerável Mestre, que já nem barcos temos para aviar uma simples sardinha!

- Peço a palavra, Venerável Mestre

- Irmão Daniel, tens a palavra, a bem desta Respeitável Loja

- Muito obrigado, Venerável Mestre. Quero apresentar o meu abraço fraterno ao nosso querido Irmão Inocêncio e com ele saudar todos os nossos Irmãos da Loja Republicana Portucale, nesta hora de infortúnio.

- Infortúnio? Mas o que é que se passa neste nosso Templo?

- Venerável Mestre...o Templo...ruiu...

- Eu bem que suspeitava daquele fradalhão do Melícias!

- Não foi bem por aí que as Colunas abateram, Venerável Mestre

- Então, como é que os profanos entraram?

- Com martelo e escopro, Venerável Mestre, para trabalharem a pedra bruta

- Mas esse é o trabalho de um maçon: transformar a pedra bruta em pedra cúbica!

Do seu assento, no Oriente, ergue-se, irada, a figura imponente, majestática e senatorial do Grão Mestre, inquirindo a Assembleia:

- E vós, meus Irmãos, que fazíeis enquanto esses profanos ousavam roubar-nos as nossas Virtudes?

Respingada de alguns tremeliques, ouve-se a voz, algo sumida, do Venerável Mestre da Loja:

- De pé e à ordem, meus Irmãos. Ao meu golpe de malhete respondam, em uníssono, à pergunta do nosso Muito Respeitável Grão Mestre.

Golpe de malhete

- ESTÁVAMOS A DEFINIR O QUE É A PEDRA CÚBICA, GRÃO MESTRE!

- The End -

"As 2 Últimas" - 1ª Parte

Posted on Segunda-feira, Abril 10, 2006 at 04:49PM by Registered CommenterLuís Antunes in , | Comments Off

amedrontado1.jpg- Filosofia -

Há coisas em que acredito firmemente. A ciência, por exemplo. Dá-se um pontapé numa bola e ela rola, rola, até que pára, novamente. Passa do estado de repouso ao movimento e, se calhar, por cansaço, volta ao mesmo. Falar em tamanha evidência não é coisa de somenos, pois trata-se do famoso Princípio Fundamental da Dinâmica, ou Segunda Lei de Newton: força igual à massa vezes a aceleração. Nem mais! Também se pode dizer, é claro, que a força é a derivada do movimento linear ou quantidade de movimento. E gosto de acabar sempre estas minhas elucubrações, termo que muito aprecio, porque de difícil dicção, com a velha máxima de que na natureza nada se cria, tudo se transforma. E nisto baseio eu aquilo que chamo de minha filosofia.

Diria, assim, que sou um empirista, porque me fico pelas aparências, mas tenho também algo de racionalista porque não quero deixar Deus lá no Seu céu pensando que, cá na terra, tudo bem. Seria o mesmo que pensar que os desígnios Dele ultrapassam a compreensão humana. Isso não é moral, é má-fé. Porque o desejo de sermos Deus, pensem bem, - aonde está a nossa omnipotência e benevolência - só nos traria problemas. Fiquemo-nos, pois, neste dilema, também partidários da transcendência.

Por isso não sou daqueles que pensam que o acaso, o azar, a má fortuna não existem.

Falha-se, perde-se, erra-se sempre pelo azar, prova de que ele existe ou de que, quem o invoca, não tem quanto baste de imaginação criadora para a mentira. Tem lógica, o azar, e também a fraca desculpa. Mas é preciso que o azar encontre uma janela, uma porta aberta, vá lá, semi-aberta, para entrar. Ora, na minha ciência, está tudo fechado, que o mesmo é dizer que azar não entra. Mas, repito, lá que existe, existe.

"As 2 Últimas" - 2ª Parte

Posted on Segunda-feira, Abril 10, 2006 at 04:16PM by Registered CommenterLuís Antunes in , | Comments Off
rei20bufo.jpg
- King -

Como naquela “mão” que é o nome pelo qual eu arquivo cada uma das etapas ou fases, tanto me faz, do jogo de cartas chamado “o King”. As duas últimas, para vocês melhor se situarem, mesmo sem mais pormenores. Bom, para quem tem duques, ternos, quadras, quinas e por aí fora, nem no jogo se pode pegar. Não se faz nada, nem de bem nem de mal, assiste-se e espera-se a mão acabar para ver quem será o infeliz, ou infelizes, em caso de divisão, que faz, ou fazem, as duas últimas vazas. Mais nada, chato, estúpido, até. E vai daí, orgulho saloio de que todos temos sempre um pouco, diz-se, alto e bom som: “nem que o Diabo cá estivesse, eu fazia as duas últimas”.

É assim, meus senhores, escusam de me olhar com essas caras, a sorte está comigo. É bom para o nosso ego estar por cima, a coberto do azar. Vá, joguem, que eu assisto. Querem o duque ou a quina? Nem estou com atenção para ver quem se vai tramar. Como o rico, perante a crise e a miséria dos outros. Dá pena ver, tem-se simpatia pela dor, mas que se há-de fazer? Deus ou a Divina Providência assim o quizeram. Lá está, os desígnios do Alto, o mal moral, que não nos compete a nós, pobres mortais, entender, quanto mais questionar!

Mas a vida tem momentos bons, como o daquela partida que até nem está má, vamos ver como vai correr nos “peditórios”. Para ser franco, não sou muito do tipo ganhador, daquele que faz tudo, sempre na ânsia de atingir mais e mais. O meu problema é perder, porque aí, viro, sem querer, ganhador. Aguns diriam que a necessidade aguça o engenho, eu diria que o meu ego é como o infeliz que cai à água e tenta não se afogar. Deve ser por isso que tenho tanto medo de morrer: para todos os efeitos é a derrota final. Com papel passado e assinado pelo Cartório Celestial, como diria o Vinícius de Morais, poeta lírico, embaixador da cachaça e do whiskey, músico e grande safado. Saravá!

"As 2 Últimas" - 3ª Parte

Posted on Segunda-feira, Abril 10, 2006 at 04:14PM by Registered CommenterLuís Antunes in , | Comments Off
qvieira5.jpg
- Acontece -


Passadas? Passaram as cartas? Pois é, acontece, é um azar! Raro, mas acontece. E lembro-me bem de que ali não havia batota. Aqueles três estavam de tal modo engalfinhados no jogo que não iriam estragar o seu gozo por minha causa.

E para quem não perceba o termo engalfinhados, direi apenas que, no meu entender, significa “em luta”. Agora, que uso e abuso do termo, não tenham dúvidas. Isto apesar de me fazer lembrar não os galos, mas os golfinhos que, coitados, como são tão simpáticos, não deveriam merecer tal conotação. Simpáticos e de boa vida como os Angolanos que, naquela época do Esteves, como o meu avô chamava ao Salazar, nada faziam para terem ou merecerem uma boa vida, porque os Transmontanos e outros azarentos que, por cá havia, lá iam parar com os costados bem arreados com mochilas e G3 para que aquela gente tivesse do bom e do melhor, e com criados. Boa vida, a do senhor de Lisboa.

Ou como diria o meu outro avô, o Passadouro, que até à morte, foi sempre Júnior: “as coisas são como são e nós temos de vê-las como elas são”. Até hoje ainda não percebi se devo arrumar este pensamento na prateleira do determinismo ou naquela mais pequena, de duas simples divisões, do maniqueísmo.

Mas, voltando à minha história, que hoje, o tempo urge, peço-vos perdão pelas voltas do pensamento próprias da modorrice daqueles tempos. Pois é, azes, reis, damas de tudo o que seja naipe, à mão me veio parar. Isto, porque os jogos de cartas é coisa de filme de Hollywood ou da Broadway: “the show must go on”. Haja o que houver. E, assim sendo, baralha-se, parte-se e dá-se, de novo. Treze ases, meus senhores, treze azes para jogar!. É pegar no jogo e já está: as duas últimas são minhas e, com sorte, todas as anteriores também. É sina do azarento, senhor; se me deixar ler a sua mão, a ciganita errante quebra o mau olhado. É só me dar um tostão, meu menino bonito.

"As 2 Últimas" - Fim

Posted on Segunda-feira, Abril 10, 2006 at 04:10PM by Registered CommenterLuís Antunes in , | Comments Off
jos3f3f20de20guimar3f3fes1.jpg

- Em boa companhia -

Bem dito e bem feito. E, depois, o silêncio, ou seria a falta de vontade de falar?, o olhar para o relógio, que está no ir. Jogávamos quase a feijões, apesar de que, com o tempo, nas férias grandes, bem grandes, a sério, não como agora, se podia acumular muito escudo, para cá ou para lá. Mas, o urgente era sair, ir embora. Nem mais um copo, amendoim, tremoço, cigarrinho, fosse lá o que fosse!

Como bem me alembra, que é modo de dizer lá pelas bandas da Pateira, a figura do Zé Mealhas que, todas as noites, lá por volta da uma, invariavelmente dizia, “vamos mas é ferrar a galhada”, bem ensacado na sua gabardine, chapéu de chuva por dama, fidelíssima, de companhia. Um Colombo da TV, sem ser zarolho e sem o charuto, que o homem era mais para o copito da sossega, se bem me entendem. Só que, ao contrário do Zé Mealhas, que falava, falava e tornava a falar e dali não saia, eu queria mesmo era ir embora.

E fui. Parti só, à aventura daqueles poucos centos de metros, a descer para a casa da minha avò. Foram osso duro de roer, sim senhor. Havia ali, algures, não me perguntem onde, qualquer coisa, chamem-lhe medo, cagaço ou frio que, às vezes, até as noites de Julho nos fazem gelar o sangue, cá por dentro. Estava um escuro de bréu ou dum raio, para não dizer do caraças ou da porra, que se fica na mesma, por falta de sentido, sendo este de que falo, o da visão. E havia também alguém, sem corpo ou matéria, que se ria baixinho, porque eu o não ouvia, perto de mim. Não, não tem lógica, eu sei, mas aquele filho-da-mãe veio todo o caminho a gozar comigo.

Certo é, que nunca mais me meti com ele.
Page | 1 | 2 | Next 10 Entries