Se Queria...
Quarta-feira, Outubro 4, 2006 at 03:59PM
É esta a famosa e estúpida posição do escritor... debruçado sobre a página em branco ou, modernamente, a olhar, em frente, para um ecrã vazio?
Não. É uma daquelas frases feitas nascida de algum "best-seller". Porque nunca ninguém diz ao escritor: faz, mancha a folha, enche o ecrã. Porquê e para quê, pergunto-me eu que não sou o tal escritor, não tenho qualquer obrigação nem necessidade urgente de fama. Afinal o que quero eu diante de um ecrã? Contar a minha vida, exorcizar algum fantasma, ou simplesmente passar tempo? De tudo um pouco, pois encontro um certo fascínio em olhar para os meus dedos a carregar em teclas pretas, sarapintadas com caracteres brancos.
São assim os escritores levianos; divertem-se a escrever palavras e estão-se nas tintas para os leitores. Se calhar, os sérios são iguais.
Será isto um exercício de solidão que nunca se quis ou a constatação de que o aquele "amigo" dizia tinha um fundo de verdade: escreve um livro, tens jeito, para o resto não, falta-te a motivação , não nasceste para isso, a tua vida foi um engano. E, o livro, é refugo, caixote do lixo?
E aquela frase de boca desconhecida: quando é que vai pensar em si, viver a sua vida? Já ouvi isto antes... mas esqueci?
Abre os olhos e vê como vias quando eras inconsciente do sucesso ou do fracasso, mas não da virtude humana. Porque nessa altura ela existia e chamava-se amizade. Hoje é apenas um jogo de interesses, de utilidades, de bens de troca. Tudo e nada é teu, porque não podes partilhar. Como tantas vezes fizeste com os teus sentimentos e com as tuas mulheres. Um breve período de paixão bastava. Depois vinha o silêncio.
- Três
- O quê?
- É a tua terceira palavra esta noite...
E já eu estava a parar o carro, viagem acabada. Merda, - porque é que merda me faz lembrar estas escritoras parvas de hoje? - a gaja tinha razão e tudo isto porque nunca te conformaste contigo mesmo, sempre à procura do julgamento feminino, do conforto de saber-se querido. Ah, mas foi bom, não nego. Era um viciado nesse jogo.
Mas agora que é tarde, muito tarde, perguntas-te, afinal, o que é o amor? Como se deve viver? Porra, não sei.
Mas queria viver a minha vida. Se queria...
Luís Antunes | Comments Off | 


