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Quarta-feira
Out042006

Se Queria...

noite3.jpgÉ esta a famosa e estúpida posição do escritor...  debruçado sobre a página em branco ou, modernamente, a olhar, em frente, para um ecrã vazio? 

Não.  É uma daquelas frases feitas nascida de algum "best-seller".  Porque nunca ninguém diz ao escritor: faz, mancha a folha, enche o ecrã.  Porquê e para quê, pergunto-me eu que não sou o tal escritor, não tenho qualquer obrigação nem necessidade urgente de fama.  Afinal o que quero eu diante de um ecrã?  Contar a minha vida, exorcizar algum fantasma, ou simplesmente passar tempo?  De tudo um pouco, pois encontro um certo fascínio em olhar para os meus dedos a carregar em teclas pretas, sarapintadas com caracteres brancos. 

São assim os escritores levianos;  divertem-se a escrever palavras e estão-se nas tintas para os leitores.  Se calhar, os sérios são iguais.

Será isto um exercício de solidão que nunca se quis ou a constatação de que o aquele "amigo" dizia tinha um fundo de verdade:  escreve um livro, tens jeito, para o resto não, falta-te a motivação , não nasceste para isso, a tua vida foi um engano. E, o livro, é refugo, caixote do lixo?

E aquela frase de boca desconhecida:  quando é que vai pensar em si, viver a sua vida?  Já ouvi isto antes... mas esqueci?

Abre os olhos e vê como vias quando eras inconsciente do sucesso ou do fracasso, mas não da virtude humana.  Porque nessa altura ela existia e chamava-se amizade.  Hoje é apenas um jogo de interesses, de utilidades, de bens de troca.  Tudo e nada é teu, porque não podes partilhar.  Como tantas vezes fizeste com os teus sentimentos e com as tuas mulheres.  Um breve período de paixão bastava.  Depois vinha o silêncio.

- Três

- O quê? 

- É a tua terceira palavra esta noite... 

E já eu estava a parar o carro, viagem acabada.  Merda, - porque é que merda me faz lembrar estas escritoras parvas de hoje? - a gaja tinha razão e tudo isto porque nunca te conformaste contigo mesmo, sempre à procura do julgamento feminino, do conforto de saber-se querido.  Ah, mas foi bom, não nego.  Era um viciado nesse jogo.

Mas agora que é tarde, muito tarde, perguntas-te, afinal, o que é o amor?  Como se deve viver?  Porra, não sei. 

Mas queria viver a minha vida.  Se queria...