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Quinta-feira
Nov092006

Inerte

inerte.jpgNos teus ombros sentes o ligeiro aperto dos braços dela, mas a respiração quase que não se ouve.  Mas ela está lá, nua, debaixo do teu corpo.  Vieram-te à memória os abraços das partidas, mas faltava-te o ruído dos aeroportos e cais de embarques.  Ao redor de ti, só o silêncio que não queres, não deves interromper. 

Sabias que estavam ambos cansados não por força de darem, mas pela falta da dávida.  Que sentido faziam aqueles dois corpos abraçados?  Nem desespero havia, apenas uma longa espera, da derrota?

Não te disse ela, tantas vezes, que o medo a paralisava,  que o amor entre ambos estava estagnado, que precisava de alimento?  Sim, mas a culpa não era tua.  Nunca tinhas amado tanto uma mulher.  Nem imaginavas que te fosse possível amar assim.  Aquela mulher que criastes estava a fugir-te, entre os dedos, amando-te sofregamente. Mas, abandonando-te.  Fraca, sim, era o que dela a tua raiva, desespero? te fazia pensar.  Meu Deus, como detestavas os vencidos!

Mas, o que é que ela quer?  Continuar com a sua vidinha recheada de certezas e monotonias?  Continuar peça de mobiliário num lar de bonecas e esterótipos de felicidade?  Ponto finito na estatística da imoralidade vigente?  Ah, os poetas não conhecem a mesquinhez da realidade, da segurança, do futurozinho adquirido junto do caixote da TV, das revistas cor-de-rosa, da ida à praia, das festas de aniversário, dos natais em família... ainda há?.  Esses sonhos não são poéticos, são porcaria.  Merda de vida!

O amor é infinito, posto que é chama!  

Ó senhor poeta, não conhece o interruptor da luz?  Carrega e acende, carrega e apaga.  Sem medo de queimaduras, sem tempo precioso perdido a ver o carvão nascer da madeira ardente.  Morreu, senhor poeta, você morreu!

- Vens?

Olhas para ela... o sutiã branco cobrindo os seios que adoras beijar.  Brinca com a blusa.  Castanha, fina, em bico.  Dobra-a, desdobra-a, olha para ti e oferece-te um sorriso.  Condescendente.  É lindo aquele rosto.  De mãe.

- Fico

Lutar, para quê?  Há mar e mar, há ir e voltar, não é?  Mas tens medo do fim... poderá não haver mais mar.  Sobretudo esse que tu queres, sereno, acolhedor.  Estás farto de lutar contra as ondas.  Era bom boiar... para sempre, até ao fundo... da terra.

Absurdamente inerte.