Luís Antunes | Comments Off | Montras de Natal
Sexta-feira, Dezembro 8, 2006 at 03:59PM
- Táxi! É para a Av. da Liberdade, junto ao Tivoli.
- Uma última compra antes do Natal...
- Não. Uma última reunião, antes do Natal.
- Nem todos somos iguais.
- Pois não. Eu vou sentado atrás...
- Não acredita, então, na igualdade entre os seres humanos...
- Você o disse.
- Uns têm tudo e outros nada têm. Uns sentam-se atrás e outros conduzem? Isto, conduzir em Lisboa, em Dezembro... haja paciência! Já nem a faixa do BUS é respeitada!
- ...aha...
- Mas esta questão da igualdade não pode ser aceite em termos racionais. Seria não aceitarmos a diferença. Que pode ser e é, muitas vezes, inata. A cor da pele, a religião, a herança genética. Os homens das Luzes quiseram matar Deus e Este, deu-lhes a ciência!
- Não acha injusto conduzir um táxi, ser chófer?
- Ah, a Justiça! Essa não quer saber da igualdade, sabia?
- Ai, não!?
- Não. Interessa-lhe, tão só, a igualdade de condições. Você, pelos vistos, soube aproveitá-las melhor do que eu...
- Pelos vistos. Talvez não tenha sido tão racionalista como você. Sou mais Sartriano; nunca acreditei em destinos pré-concebidos.
- Este semáforo tem o verde desligado! Acredita, então, na liberdade individual, mas enquadrada num paradigma social?
- Fala do sucesso?
- Isso é, para si, um paradigma?
- Claro
- Então viva a liberdade. A sua liberdade. Aí atrás.
-
- Ande lá, minha senhora, páre de olhar para as montras de Natal. Há quen tenha pressa, sabia?
- Há quem se esqueça de que tem de conduzir.
- Verdade, meu caro freguês, verdade. A propósito, o meu amigo é do Benfica ou do Sporting?
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