- King -
Como naquela “mão” que é o nome pelo qual eu arquivo cada uma das etapas ou fases, tanto me faz, do jogo de cartas chamado “o King”. As duas últimas, para vocês melhor se situarem, mesmo sem mais pormenores. Bom, para quem tem duques, ternos, quadras, quinas e por aí fora, nem no jogo se pode pegar. Não se faz nada, nem de bem nem de mal, assiste-se e espera-se a mão acabar para ver quem será o infeliz, ou infelizes, em caso de divisão, que faz, ou fazem, as duas últimas vazas. Mais nada, chato, estúpido, até. E vai daí, orgulho saloio de que todos temos sempre um pouco, diz-se, alto e bom som: “nem que o Diabo cá estivesse, eu fazia as duas últimas”.
É assim, meus senhores, escusam de me olhar com essas caras, a sorte está comigo. É bom para o nosso ego estar por cima, a coberto do azar. Vá, joguem, que eu assisto. Querem o duque ou a quina? Nem estou com atenção para ver quem se vai tramar. Como o rico, perante a crise e a miséria dos outros. Dá pena ver, tem-se simpatia pela dor, mas que se há-de fazer? Deus ou a Divina Providência assim o quizeram. Lá está, os desígnios do Alto, o mal moral, que não nos compete a nós, pobres mortais, entender, quanto mais questionar!
Mas a vida tem momentos bons, como o daquela partida que até nem está má, vamos ver como vai correr nos “peditórios”. Para ser franco, não sou muito do tipo ganhador, daquele que faz tudo, sempre na ânsia de atingir mais e mais. O meu problema é perder, porque aí, viro, sem querer, ganhador. Aguns diriam que a necessidade aguça o engenho, eu diria que o meu ego é como o infeliz que cai à água e tenta não se afogar. Deve ser por isso que tenho tanto medo de morrer: para todos os efeitos é a derrota final. Com papel passado e assinado pelo Cartório Celestial, como diria o Vinícius de Morais, poeta lírico, embaixador da cachaça e do whiskey, músico e grande safado. Saravá!