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Quarta-feira
Abr162008

Amuse Buche

boneca_porcelana.jpgPor uma mulher que não nos conheça, tudo fazemos para a conhecer, na esperança de que ela, assim, nos possa compreender. São as leis da gramática, da síntaxe, da semântica.  Procura-se a compreensão.  Estranho é quando a compreendemos, sem a conhecer, e ela nos conhece, sem nos compreender.  Mas, já dizem os linguistas, que se pode falar sem se conhecerem as regras da linguística.  Ou, como o Cristiano Ronaldo, cuja habilidade no pontapear do esférico não confere nem exige nenhum conhecimento das leis da mecânica.  Por isso, por ela me apaixonei. 

Boneca de porcelana com cérebro de Einstein é coisa que não existe; ou uma ou outra, ou então é pura confusão.  Porque este ser e, ao mesmo tempo não ser, não é questão se ponha. É peça Shakespeariana.  E, no entanto, existe. As mulheres, supostamente, não são assim. Pensavam-no os meus avôs, talvez o meu pai. E eu também, que a esta fatalidade do ADN ninguém escapa. 

E é pelo dual que amo esta mulher.  Porque do eu e do ela - que esse sim conheço - forjo o número três e começa o meu plural. É a mística do sim e do não, do fogo e da água, do riso e do silêncio.  E, a partir daí, cresceu o meu amor ou, como diria Alberoni, nasceu o meu estado de enamoramento.

Mas, "hélas, les amoureux sont seuls au monde...", fiquei eu também só, perdido o meu elixir da eterna juventude e da pedra filsofal.  Porque ela, boneca de porcelana com cérebro de Einstein, mulher-sonho de qualquer homem, Alice no Deserto Namibiano, é mulher de um só.  Que não eu. Eu vivo a libertá-la do seu passado, a aligeirar-lhe a dor com a minha gentileza dolorida.  Dou-lhe o prazer de se sentir amada.

Já se sabe que quanto maior é a tarefa, tanto mais longa é a viagem e menos provável a chegada.  É assim o meu imaginário da boneca de porcelana com cérebro de Einstein: é uma exploração do possível feita a partir do impossível.  A minha história reduz-se assim à história daquela viagem, sem que haja um porto de abrigo ou horizonte de chegada. Amuse buche do meu cocktail sentimental.

E por isso eu amo uma mulher que não conheço, que nunca vi ou ouvi, com corpo de boneca de porcelana e cérebro de Einstein.