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Segunda-feira
Fev022009

Audiência Prévia

Se escutar Deus é falarmos com a nossa alma, isto quer dizer que consigo falar contigo, pois tú deves ser a dona da minha alma, ou não? Afinal é para ti que nascemos, é a ti que questionamos quando filosofamos, quando dizemos - tú sabes, da boca para fora! - qual é o objectivo desta nossa breve passagem, só sei que nada sei, cogito ergo sum...

Não falas, ou sou eu que não sei escutar, que não conheço a raíz judaica da palavra? Sabes que sei distinguir entre ouvir - o ganir do cão, o som do trovão - e escutar, saber quem fala e usar a inteligência para entender o fraseado. Mas tú não falas antes da hora que só tú conheces ou escolhes.  Até lá, estás sempre presente, és a eternidade absoluta, não aquela romântica do diamante... 

Todos te conhecemos, todos temos encontro marcado contigo, e por isso te tememos ou preferimos ignorar-te. Também eu era assim, mas agora desafio-te, agora quero escutar-te e já descobri como pôr-te a falar.  Não vens, não chegas determinado dia... tú não obedeces a nada nem a ninguém, não vais por aí... estás sempre presente, impávida e serena.  E nem sequer pestanejaste quando li o romance das tuas intermitências.  Estás acima da nossa imaginação, acima da nossa criatividade, dos prémios, da riqueza, das vaidades em que nos atolamos.  És, sem mais!

Mas o meu problema não é contigo.  Não, não te menosprezo, descansa.  Refiro-me a mim e ao nosso "encontro de contas".  Sim, à minha "accountability" perante ti.  É isso que me espera, não é?  Por isso e à espera disso estás aqui comigo, meu fiel cão de guarda. A Grande Juíza, infalível, sem tribunal, oficial de justiça, advogado ou acusador público.  Tú és o único tribunal que nem de causa precisa.  Deste-ma, mal nasci.  

E sabes qual é o meu medo, perante ti?  Não conheço a tua balança, não sei que pesos lá colocar.  A minha estupidez, a minha forma de vida, seja lá isso o que fôr, os meus sonhos não realizados, os meus mal-amados, a minha falta ou excesso de ambição, a minha honradez?   Entendes-me, ou isto para ti é o nada?  Pois... não falas... eu sei!

Mas estás mais perto de mim, admite.  Não no tempo, - isso, só tú sabes - mas no espaço. Espaço/tempo, o Einstein procurou-te por aí, enlouquecido pela dúvida.  Gostaria de saber se foi absolvido ou condenado, mas o teu tribunal é privado.  Mas eu, sem ânsias de procura, já ganhei um pouco da tua proximidade, mesmo que não te agrade.  Desculpa-me o atrevimento, mas é que vamos ter de conversar, nessa dia, local e hora da tua preferência.

Espera, não acabei! Desprezo o teu silêncio, sabias?  E não me escuso a chamar-te pelo nome, minha morte.  E não acredito que me faças pagar por este desafio.  Se eu sou teu, tú és só minha, de mais ninguém!  Como se fôssemos amantes... somos?