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Terça-feira
Ago252009

Eustanásio Cafageste

Há muito, muito tempo, mais precisamente no tempo em que os corninhos de Manuel Pinho estavam a despontar, vivia na Rinchoa, o caixeiro-fixo Manel. Fixo, porque ao contrário do outro, o viajante morto às mãos de Arthur Miller, o Manel trabalhava nas caixas dos hipers de Belmiro de Azevedo. E por isso era eufemisiticamente qualificado de "economicamente muito desfavorecido". Mas a filha, a Vânia Vanessa,dizia que o pai era mais teso do que um carapau.

Acontece que o Manel vivia sòzinho com a petiza - a sua Maria enfeitara-lhe a testa, fugindo para parte incerta com o "Pilão", mocetão bem dotado que era segurança no Motel Requente da Abrunheira - e tinha muita vergonha da sua pobreza, em vez de ter raiva do sistema económico que tanto o marginalizara e estava sempre à procura de um modo de enriquecer facilmente.

Ouvira na televisão da tasca um senhor falar sobre a rentabilização dos activos e pensara logo em colocar a Vânia Vanessa como escort na casa da Amélia, mas a moça falava muito mal o brasileiro e fôra logo rejeitada. Assim, pensara em arranjar um Jotinha do PS ou, quando muito, do PSD, para marido da filhota. O Manel era um homem que matutava muito em moldes machistas e antiquados, mas sabia que quem ficava sempre com a melhor parte eram aqueles que repartiam.

E, com tão indigno fim em vista, pôs a correr o rumor de que a filha tinha o dom de transformar em ouro puro a vulgar palha do campo. O boato chegou logo aos ouvidos de Jacinto, promissor JPS de Albarraque, que convidou a Vânia Vanessa a assistir às comemorações do 1º de Maio, tendo-a encerrado, com um fardo de palha, na sub-cave do prédio onde partilhava um Tê-Zero com os pais.

Trancada na mal-cheirosa sub-cave, a Vânia Vanessa sentou-se no chão a chorar. Nunca o carácter explorador da sociedade patriarcal tinha sido para ela tão evidente. Estava lavada em lágrimas e toda ranhosa quando na dita s/c lhe apareceu um minúsculo e velho homem, decerto aparentado com o António Vitorino, que lhe disse:

-Porque choras meu anjo?Porque não consigo transformar esta palha em ouro.

-Mas porque estás a chorar?Porque é impossível. Tu és algum sobredotado ou coisa assim?

-Filha, pensas demais com a parte esquerda do teu cérebro. Mas, posso resolver-te o problema se me deres em troca o que te pedir, ok?Mau, olha que eu não faço serviço completo, percebes?

Bom, mas como a necessidade era muita e de puta já a Vânia Vanessa tinha a cartilha completa, aceitou. Resulta que o homenzinho era especializado em agricultura, sobretudo em obtenção de subsídios do Ministério da Agricultura e da CE, e conseguiu, com a ajuda da Cooperativa dos Agricultores de Massamá, transformar a palha em várias tranches do QREN e, com o que sobrou dos vários mihões recebidos e dados em "pagamentos de favor" aos vários intervenientes e partidos, fez com que a Vânia Vanesa ficasse rica e pudesse casar com o Alberto do Bloco em vez do Jacinto da JPS.

- E agora, minha filha, tens de me pagar o favor...

Vânia Vanessa começara a desapertar a braguilha do homúnculo, quando este lhe disse: Posso dispensar-te da tua obrigação, se acertares no meu nome.

- Já sei, chamas-te Eustanásio Cafageste. E, zum! O homem minúsculo evaporara-se, mas Vânia Vanessa ainda o ouvira perguntar: Como é que adivinhaste?

Não fora o facto de Vânia Vanessa ter guardado o talão de depósito do banco suíço em que aparecia o seu nome como sobrinha de Eustanásio Cafageste e a vida podia ter-se-lhe complicado até porque o Alberto, como bom Bloquista que se preze, não era favorável à partilha privada de bens, muito menos à exploração de proletárias do sexo por homens minúsculos.

FIM