A Alfacinha
Segunda-feira, Agosto 31, 2009 at 09:54PM
Esta história é como tantas outras: já tem cabelos - não tem barba, porque há uma heroína, percebem? - de sobra e, por isso, por ser muito comprida, convém começar, porque o salário que recebo mal dá para a bucha.
E por falar em pobres, lá temos o casal do Bairro J, economicamente desfavorecidos não por terem o curso de psicologia - ele - e de politologia - ela -, mas por trabalharem num "call center" no centro de Moscavide. Ora acontece que ela - porque só elas disso são capazes - engravidou e acontece também que no pátio ao lado da barraca onde viviam, morava uma bruxa seguidora da política do arquitecto Ribeiro Telles e, como tal, tinha uma pequena mas repugnante horta citadina onde cultivava alfaces.
Blá mais blá, a grávida deu em desejos de alface, o psicólogo achou por bem rever uns apontamentos da faculdade e lá estava, preto no branco, na sebenta do Prf. Amaral Dias: tinha mesmo de ir roubar as alfaces à bruxa que, como é óbvio, o apanhou com a chamada boca na botija ou mão no molho das alfaces... e patati e patatá, vai-te lá embora que eu sou adepta do novo Código Penal, mas isto não fica assim, vou para os jornais e pardais ao ninho...
Nascido o rebento, recebidos os 200 euros da praxe, apareceu a bruxa com umas pedopsiquiatras funcionárias do Tribunal de Família e lá vai a petiza - era uma e não um, e chamava-se Alfacinha - sob a custódia da bruxa em moderna família monoparental, com reportagem e choros em directo no Jornal de sexta-feira da TVI.
Mais blá e blá, a Alfacinha viu-se privada dos seus direitos constitucionais numa barraca com ligação directa à baixa tensão da EDP, no alto de uma árvore mandada plantar no tempo das grandes obras do Dr. Pedro Santana Lopes, deixou crescer os cabelos e a bruxa trepava por eles acima todos os dias, só para ouvir a Alfacinha cantar as suas belas baladas escritas pelo Toni Carreira que as copiava de um determinado site da net.
Até que um belo dia - nas histórias, os dias são sempre belos, caso ainda não tenham reparado - apareceu o Grunge, caboverdiano que esteve na origem da criação dos Buraka Som Sistema - é dele a introdução do Sistema - e, ao ouvir a bela voz da Alfacinha, chamou e trepou pelos cabelos acima. E aqui abre-se um parêntesis para se perceber como funcionava isto do "elevador de cabelos" que não era feito pelo habitual carrega no botão, mas antes gritando para o alto da árvore:
- Alfacinha, Alfacinha, solta a tua cabeleira para eu subir a áurea escaleira... (Escaleira é escada em espanhol, para, de acordo com o pedido do Governo, procedermos à internacionalização da escrita portuga. Ah! E também dá jeito para rimar com "cabeleira").
É claro que a bruxa topou a marosca, subiu com uma cabeleira própria fornecida pela Rita do Sasson Vidal, daquelas para fazer extensões às da Caras, e vai daí, a barraca da Alfacinha virou Parlamento de tanta discussão, insultos e asneiras trocados em on e off pelo Grunge, pela Bruxa e pela Alfacinha.
A coisa só parou quando o Grunge resolveu ceder os direitos de imagem, - videoclips e Youtube incluídos - à bruxa, dividindo o resto - contratos de gravação, remunerações, material promocional tipo bonecas Alfacinhas com torre de som incluída e iPod - a mielas.
Nisto, a Alfacinha percebeu que durante anos tinha sofrido a exploração dos seus cabelos para a satisfação das necessidades de transporte de outrem e que agora queriam explorar também a sua imagem e voz. "Pelos vistos, a rapacidade não tem só a ver com o sexo", concluiu com um suspiro. E, pirou-se da cena, indo oferecer os seus préstimos ao Zeinal Bava da PT que ela sabia andar à procura de conteúdos para a sua luta privada com a Zon.
FIM
Luís Antunes | Comments Off | 


